exposição coletiva

Angela Od  |   Bárbara Mangueira  |   Maria Mattos  |  Zé Carlos Garcia

a queda

novembro/2017

“A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto.”

lbert Camus, A queda (1956)

 

A inocência, aparentemente, é um atributo natural do ser humano. Decorre dela, em alguma medida, o desejo de partir rumo ao desconhecido. Se inocência é também oposto de culpa, pode-se discernir que a vontade de perda da ignorância está relacionada à culpabilidade implícita nas escolhas que conduzem a uma maior consciência – por que não comer do fruto proibido? O sujeito inocente inquieta-se: diante de si, de sua imagem, há algo que já não é mais ele mesmo. Aquilo que vê, mais que seu reflexo no espelho, é o índice daquilo que deseja ser. É chegada a hora de abandonar o ninho, criar asas – ser todo asas –, ganhar o mundo em busca de algo que não se sabe bem ao certo o que é e nem onde está. Inicia-se assim a aventura humana como metáfora da viagem: a peregrinação do herói como jornada de (auto)conhecimento.

 

Se conhecimento é aquilo que se busca, é preciso não se preocupar com o julgamento. Lançar-se em direção ao mundo, estar receptivo aos encontros e desafios que a viagem irá reservar: incide aí o inevitável confronto com o Outro e consigo mesmo. Na jornada do herói chega-se à queda, à entrada do mundo subterrâneo, em pleno crepúsculo, após a caminhada guiada pela luz do sol. Não importa mais os grandes feitos, as conquistas iluminadas, os gestos de coragem e bondade, as plenas alturas alçadas durante o voo. Quando se olha para o mundo do alto, é possível perceber a vastidão do percurso percorrido. No entanto, a completude desejada só pode ser alcançada na direção oposta: no movimento para baixo, para o interior.

 

Sobressai-se o mergulho. A jornada torna-se noturna, misteriosa, delirante. Na queda é preciso olhar para o obscuro, para o mais profundo, para conseguir ver além. O desencanto pede recolhimento e introspecção; mas é também momento de subversão e revolta. Esse estado é fruto das escolhas assumidas no trajeto, da opção pela perda da inocência, e não devido ao rumo dos acontecimentos. Sempre há escolha. Frente à atmosfera de incerteza e à derrocada de valores, à constante crise existencial, mais que purificação em prol de uma suposta salvação, deve-se assumir a culpa – culpa como vontade de conhecer(-se). Desse modo, não há julgamento final, mas apenas aquele que se realiza no aqui e agora, a todo instante. Somos, enfim, sujeitos caídos, provocados continuamente à reinvenção de nós mesmos e do mundo. Como ressaltou Camus, “mentiras não conduzem finalmente ao caminho da verdade?”.

 

Ivair Reinaldim

curador

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