VIVIANE TEIXEIRA

AS MÚLTIPLAS FACES DA RAINHA

agosto/2017

O erótico em facetas

 

A mostra As múltiplas faces da rainha abrange um número de pinturas e desenhos realizados por Viviane Teixeira nos últimos anos. Em comum, o conjunto integra o universo poético da artista, voltado para a concepção de imagens-narrativas em torno de cenas da vida na corte, e, em termos cronológicos, antecede a “instalação pictórica” apresentada tanto no Centro Cultural São Paulo (2015) quanto no Paço Imperial (2016). Diferentemente das exposições anteriores, contudo, os trabalhos aqui reunidos não evidenciam uma conexão prévia entre si, ressaltando seu caráter fragmentário e ao mesmo tempo autorreferente. Ou seja, constituem narrativas per se, de natureza autônoma e multifacetada, como o próprio título da exposição procura explicitar.

É notório que as personagens e cenas presentes nos trabalhos da artista nascem da conjunção de inúmeras referências – cartas de baralho, jogos de tabuleiro, artes cênicas, literatura, pinturas e narrativas históricas. Soma-se a isso um repertório imagético que engloba biologia, artes decorativas e indumentária. Todos esses elementos reunidos contribuem para conformar um mundo fantasioso particular, dando visibilidade ao imaginário da artista. Por serem mais ou menos reconhecíveis, tornam-se signos capazes de reforçar as histórias que os trabalhos representam e mesmo de estimular a construção de novas narrativas. No entanto, essa dimensão acaba encobrindo (ou servindo como pretexto para não se abordar) outras características do trabalho, como, por exemplo, a exteriorização do erótico.

Embora o termo erotismo pareça apropriado, sobretudo no que tange aos trabalhos que a artista vem desenvolvendo, visto a atmosfera sexual que atravessa muitas de suas figuras, é possível que o mesmo reduza o sintoma que essas imagens explicitam a um lugar-comum. Por isso o uso do termo erótico torna-se preferencial, entendido aqui como aquilo que antecede o que a opção pelo sufixo “ismo” costuma categorizar (restringir). O erótico expressa-se na inquietude sexual existente na ambiência das cenas, nas poses e relações que as personagens estabelecem entre si, no caráter por vezes ambíguo da representação dos gêneros. São personagens que desejam, que tencionam continuamente sua relação com o ambiente e com aqueles que as observam: o espectador torna-se assim uma espécie de voyeur, alguém que não só observa um acontecimento – como público ou mesmo, de modo sorrateiro, no canto da sala, por detrás da cortina ou através do buraco de uma fechadura –, mas presencia inquieto algo que se explicita diante de seus olhos. Ou seja, torna-se, querendo ou não, ser desejante.

Há ainda outra circunstância relacionada ao erótico, não menos evidente; no entanto, cabe reforçar, menos literal. O estímulo sensorial que formas, linhas, cores, pinceladas e texturas instigam naqueles que observam essas obras também é capaz de promover uma percepção múltipla da tensão erótica existente nos trabalhos. Para além das imagens reconhecíveis, esses elementos da linguagem pictórica e gráfica despertam a vontade do toque, a temperatura, o delírio e a lascívia – passam do visual ao apelo háptico, são capazes de provocar as mais diferentes relações sensoriais, explorar a fantasia, a excitação, o libidinoso, o desconforto, a repulsa –, tornam-se fetiche plástico-visual. No que tange ainda à fatura desses trabalhos, embora a formação em belas artes e a atuação no restauro e conservação de pinturas históricas constituam facetas de Viviane Teixeira, a artista destaca-se pela ousadia, ao desvirtuar um conjunto de saberes técnicos e estéticos, protocolos formais e visuais, de modo a explorar uma capacidade provocante e mesmo perturbadora de figurar o fantástico, o subversivo, o visceral, enfim, o erótico.

O trabalho de Viviane Teixeira possui uma natureza ambígua, pois seu colorido, seu repertório visual, seu caráter lúdico poderiam agradar sem reservas; porém, muitas vezes, promovem o contrário: um encontro com aquilo que incomoda, que desconcerta, que provoca. Quando a arte pretende simplesmente encantar ou enaltecer e as convenções do estético garantem resultados satisfatórios, a atmosfera decadente e voluptuosa desses trabalhos parecem apontar para algo que a linguagem não é capaz de conter ou definir, aquilo que só a visceralidade do querer permite externar. A rainha, mais que um signo, constitui uma imagem polivalente, obtusa, dúbia, um ser cujo desejo (poder) reforça a capacidade de assumir inúmeras faces, circular por diferentes contextos, transformar-se e provocar transformação.

 

Ivair Reinaldim

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