edu monteiro

corpos em luta

outubro/2019

“O corpo é um portal que, simultaneamente, inscreve e interpreta,

significa e é significado, sendo projetado como continente e conteúdo,

local, ambiente e veículo da memória.” - Leda Maria Martins*

 

  

As danças de combate, Ladja (praticada na Ilha da Martinica, território francês no Caribe) e Laamb (do Senegal), são os pontos de partida para a leitura das obras apresentadas na exposição Corpos em luta. Nós, brasileiros, temos a Capoeira, que possui pontos em comum com a Ladja e a Laamb, estas 3 manifestações socioculturais são refúgio, memória e resistência de um corpo ancestral, coagido a percorrer o caminho da diáspora africana.

 

As imagens que compõem a exposição são registros de quem viu, vivenciou e pesquisou as práticas de combate na Martinica e Senegal. As obras aqui apresentadas não deixam de ter um perfil documentário, no entanto, Edu Monteiro vai além ao desfocar as linhas que definem os limites entre ser fotógrafo e artista, enfatizando características que sempre integraram seus meios de expressão artística.

 

A linguagem contemporânea, na multiplicidade de caminhos a que percorre, é a forma pela qual Edu Monteiro cria instalações, objetos escultóricos e fotografias que se sustentam apoiadas em ricos indícios simbólicos. A tensão gera o equilíbrio ancorado na pele. O carvão é uma referência   à metáfora usada na Martinica para a pele negra, como algo que já queimou, sofreu, resistiu e ainda resiste. A pele esticada no espaço ocupa o vazio, preenche, rompe a parede da galeria, ao passo que o invisível ganha corpo. A todo tempo, Edu Monteiro nos insere como cúmplices de um ritual.

 

E por falar em ritual, alguns elementos que constituem a exposição são signos existentes durante a formação de rodas de danças de combate. Ao empilhar duas pedras, os praticantes da Lajda acreditam em uma conexão com o mundo espiritual, o que poderia consagrar o vencedor do combate. Já na luta senegalesa, o chifre de carneiro compõe a mandinga, conhecido como um elemento de poder e força vital. O tambor, tradicionalmente produzido com couro de carneiro, em ambas as manifestações é o instrumento responsável por gerar a energia e o ritmo para corpos em luta, de modo que seu som é considerado um elo entre o mundo real e o sobrenatural.

 

Edu Monteiro confere visibilidade às práticas de combate relacionadas à diáspora africana, sem fazer uso de uma narrativa panfletária, as danças de combate são a base do processo criativo das obras apresentadas.  Trata-se de memórias, gestos e ritmos tradicionais transformados em objetos de arte através de experimentações e subjetividades. O que reverbera uma produção artística consolidada na contemporaneidade, com identidade e repertório bem definidos.

 

 

Laís Santana

Curadora

 

 ​ 

*MARTINS, Leda Maria. Performance do tempo espiralar. In: RAVETTI, G.; ARBEX, M. (Org.). Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: Departamento de Letras Românicas UFMG, 2002, p. 89

 

 

 

 

 

O percurso profissional e artístico de Edu Monteiro inicia-se com o fotojornalismo. No entanto, já no seu primeiro ensaio pessoal - “Mandingueiros” sobre a capoeira e finalizado em 2006 - sua busca foi pelo simbólico, elemento arraigado em seu espírito e presente nos objetos retratados e situações performadas a partir de então. “Jardinagem,” “Saturno”, “Autorretrato sensorial”, “Noite Chinesa”, são algumas das séries que desenvolve lançando mão de diversos meios: imagem, som, movimento.

 

[Pedra, couro, corda. Corpo.] Do bidimensional parte para o espaço, sem abrir mão dos elementos simbólicos. Busca nos rituais da capoeira, ladja e laamb uma fonte para verter sua poesia, transformando-a em imagens, textos e objetos escultóricos carregados de ancestralidade. O discurso metafórico se forma através da associação de fragmentos compilados na Martinica, Senegal e Brasil.

 

Familiarizado com a essência dos rituais das danças de combate africanas e da diáspora, Edu Monteiro apresenta uma visão de dentro dos fatos, desafiando as fórmulas fechadas do fotojornalismo (do início de sua carreira) e de uma narrativa meramente documental. No centro de suas convicções, há uma visão transcendental que o une ao intangível destas práticas.

 

[Tensão, equilíbrio, energia. Vida.] Não só a composição e a luz dão forma a seu trabalho. A cor e o som são parte estrutural de sua produção. Seu propósito estético evidencia segredos de tal maneira que a realidade retratada vira símbolo. O símbolo vira imagem. A imagem transforma o outro - o observador - que passa a identificar formas ainda inconcebidas e não reconhecidas dentro de si.

 

O impulso criativo de Edu Monteiro lida com questões essenciais da vida, com potência e coragem.  Desvelar mistérios tem sido a busca desse artista coerente com suas escolhas estéticas, que passam com a mesma força pela performance, fotografia, escultura, instalação, texto, vídeo, audiovisual.

 

  

Marcia Mello

Curadora

 

  

  

 

Ficha técnica:

Assistentes: Heloisa Guimarães e Netinho

Design gráfico: João Paulo Pereira

Arte sonora: Dai Ramos e Edu Monteiro

E um agradecimento especial a todos os envolvidos que possibilitaram esta exposição.

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