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cultura insonia

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Em 2010, Toz conheceu Insonia. Poderíamos dizer que fora criado, mas suas implicações na obra do artista são tão profundas que parecem ultrapassar aquele que o revelou, levando-nos a crer em uma possível existência mitológica a priori dessa criatura, com vontades, ambições e humor próprios.

Insonia, que cresceu e aos poucos foi mostrando seu povo e sua cultura. Gradativamente expressando-se na pluralidade de suas aparições, é um personagem análogo ao imaginário de diversas tradições. É possível pensá-lo sob o arquétipo do trickster, uma entidade ambígua e brincalhona, podendo-se encontrar paralelos com Hermes, Mercúrio, o Coringa, e nos contextos brasileiro e africano, como uma deidade tão controversa quanto querida: Exu.

Insonia é tanto o malandro da Lapa, Seu Zé Pelintra, quanto o arruaceiro Saci-Pererê. Assim como este, que só se torna visível quando se cai na modorra - estado suspenso entre o sono e a vigília em que é difícil discernir o onírico do plausível - a criatura começou a revelar-se para o artista nas suas noites em claro. Foi nessas fronteiras borradas entre delírio e a linearidade, entre indivíduo e a coletividade que se deram sua existência e seu fenômeno. É uma manifestação dessa mitologia universal no universo particular do artista.

Como uma faceta desse arquétipo, é possível pensar a própria figura do grafiteiro. Ao observá-lo pela ótica da história da arte, percebemos esse ator curioso e indefinível que vem das ruas, passa à galeria, elude o cubo branco, retorna ao urbano em uma monumentalidade inédita, não nos revelando seu lugar de (des)pertencimento. Talvez porque não tenha e não queira ter. Sua pertinência está exatamente no esgarçamento dos limites e de sua eterna inadequação.

O grafiteiro, tal qual Insonia, tal qual Exu, quando acreditamos ser possível compreendê-los, nos eludem e assumem uma nova forma, um novo discurso em uma excêntrica e irreverente pantomina caleidoscópica que distorce nossas noções de linearidade, território e identidade.

 

Felippe Moraes

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