toz

em família

abril/2010

Tomaz Viana, o Toz, é filho de uma geração que colecionou bonecos de Falcon e Playmobil, Fofoletes e Ursinhos Carinhosos. Quem foi criança nos anos 1980 conheceu o tempo que inventou as mascotes sintéticas, muito antes do advento do Tamagoshi e dos animaizinhos virtuais de FarmVille. Já crescido, Toz criou companheiros feitos com tinta spray, que são seus alteregos e traduzem estados de espírito e preocupações existenciais, quase filosóficas. 

Baiano, que veio para o Rio ainda adolescente, inventou uma família de personagens misturando referências quase universais do grafite - a animação e os mangás japoneses - com seu mundo particular. No trabalho que sai das ruas para ganhar vida em telas, desenhos e objetos, ficam mais claras as referências as estamparias de tecidos populares no Mercado Modelo e a profusão de cores da Baixa do Sapateiro de sua infância em Salvador. Um americano, segundo marido de sua avó, o levava para pescaria e lhe explicava tudo sobre lulas e polvos. Este avô gringo e marítimo, quase um pirata, encheu seus personagens de memórias aquáticas: eles exploram o mundo em navios e caravelas e se transformam em seres vindos da água salgada. 

Nina, a mocinha linda e flutuante, mas melancólica e eternamente insatisfeita, frequentemente ganha uma cauda de sereia, traduzindo o mistério que as mulheres representam para o sexo oposto. Homem que não quer crescer ou neném com insights de ancião? O BB Idoso pode ser uma coisa ou outra, mas traduz de forma quase arquetípica uma geração com complexo de Peter Pan, que demorou a sair da barra da saia da mãe. 

Shimu, o mostro-ameba criado para atender a rapidez do spray, virou marca registrada da alegria e da esperança dentro da Família Toz, que se completa com o amigo-urso Julius e o esquentado Romeu. 

Estes seres agora saltam dos muros para finalmente virar bonecos de verdade, na coleção de toy art que compõe esta exposição ao lado de telas e desenhos do artista. A transposição do grafite para outros suportes recupera um movimento que aconteceu há cerca de 30 anos. Na mesma década em que os contemporâneos de Toz aprendiam a patinar com as Patotinhas e iam a shows no Morro da Urca e na Mamão com Açúcar, o grafite contaminava a moda e a arte da chama Geração 80 com suas cores fosforescentes e seu traço simples. 

Eco ancestral - as primeiras pinturas da humanidade foram feitas nos muros das cavernas - o grafite ganhou força no Brasil de décadas atrás embalado pelo impacto causado pela obra de Jean-Michel Basquiat e Keith Haring em Nova York. Na virada para o século XXI, a cultura hip hop e os skatistas fortaleceram um tipo de tribo urbana capaz de criar um repertório para estes desenhos feitos com spray. Surgiu então uma poderosa geração de grafiteiros, que tem em Toz um de seus trunfos. 

Andar pelas ruas do Rio é ter a visão inundada por suas criaturas, que se misturam a imagem e a memória desta cidade trazendo para ela o eco de outros lugares, reais ou imaginários. Estar diante de uma exposição de Toz é ter isso tudo e ainda trazer muros cariocas e do espaço público para uma outra escala, a da intimidade da vida doméstica. 


Daniela Name

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