ramon martins

extração

2017/July

É um tom terroso, quase avermelhado, da mistura entre negro, branco e índio que tece a cor da pele dos ribeirinhos da Ilha do Combu, no Pará. Em suas casas de palafita, a simplicidade dos lençóis estendidos no varal encanta assim como a arquitetura modesta, mas engenhosa. Livres pelas varandas, as crianças dali ora brincam com os cães, ora mergulham no rio sob o sol a pino. Dessa convivência com a comunidade amazônica eclodiu a força motriz para que o artista plástico Ramon Martins pudesse materializar e exibir Extração, sua nova exposição individual na Galeria Movimento. A curadoria traz a assinatura de Ricardo Kimaid Jr.

 

Participar do Street River 2017, festival que convidou diversos artistas brasileiros a pintar as residências ribeirinhas da ilha, proporcionou a Ramon sua primeira experiência na Amazônia. Ali, os instintos de um amante da natureza que largou a metrópole paulistana para viver num sítio e se dedicar calmamente às artes, foi aguçada.

 

Sempre presentes em suas obras espalhadas pelo mundo, as mulheres com feições nipônicas cederam lugar às crianças paraenses e seus semblantes levemente indígenas. Essa nuance familiar, até então pouco explorada pelas obras do artista, assim como a presença de personagens masculinos, pulsa com vigor em Extração.

 

Uma das pinturas com maior dimensão traz a jovem Danielle Farias e seu papagaio Drico, que trocou a vida selvagem e os companheiros que sobrevoam a ilha para ser domesticado e viver com uma família de humanos.

 

Ramon muniu-se de pincéis e tinta para transformar fotos suas e de amigos que estiveram na viagem em pinturas. Para isso, recorreu à técnica que vem desenvolvendo: o exercício de recolher fragmentos de ambientes por onde passa e usá-los como base para as obras. Os fragmentos retirados diretamente da parede geram, a princípio, uma abstração carregada de memória e do íntimo interesse do artista em transformar algo momentâneo em permanente.  Em seguida, a abstração dialoga com a pintura de personagens ribeirinhos que recebem cores feéricas, como o laranja fluorescente e o rosa-choque, inseridas nas cenas para enfatizar o vivo, o bonito e o aspecto tão brasileiro do Pará.

 

E é assim que crianças ribeirinhas como Suzane, Victor Hugo, Fernando e seus pais, tios e primos partem da Ilha do Combu, a 10 minutos de barco de Belém, raramente notada pelas autoridades locais, para o mundo. Seres humanos inicialmente retratados por câmeras e, em seguida, eternizados pelos traços de Ramon.

 

Ramon Martins nasceu em 1981 na cidade de São Paulo, SP, mas foi criado em Minas Gerais. É bacharel em artes plásticas pela Escola de Arte Guignard, da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e especializado em pinturas, desenhos e muralismo. Em 2016, pintou o mural tido como o maior do mundo durante a terceira edição do Vulica Brasil, em Minsk, Belarus (antiga Bielorrússia). Já exibiu suas obras em feiras como a Art Basel e Scope Miami Beach, ambas nos Estados Unidos. Integra acervos de instituições como o Masp (Museu de Arte de São Paulo), o MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) e o Museu da Abolição, no Recife, PE.

Débora Lopes

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