mateu velasco

i n fi n i t i v o

agosto/2020

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Como se quisesse abraçar o tempo...

 

Na produção recente de Mateu Velasco, há uma vontade poética tão intensa, que parece almejar o infinitivo. À maneira de quem reflete sobre questões filosóficas fundamentais, como a de ser e de estar no mundo, seus trabalhos sugerem driblar a duração sequencial peculiar a Chronos, em favor da indeterminação temporal de Kairós. Em lugar da finitude do tempo entrópico e linear, Velasco indica desejar, portanto, a infinita experiência do momento oportuno. Seu alvo é, pois, a qualidade em detrimento da quantidade. Sob tática lúdica, suas obras fluem através de um vocabulário onírico, mnemônico e ficcional. E para realizá-las, não por acaso se utiliza de diferentes meios e suportes, como pinturas, desenhos, bordados sobre madeira, tecido ou cerâmica, além de recortes manipuláveis.

Mateu possui um virtuosismo no desenho inconteste. A fugacidade de seu traço parece externar a agilidade de seu pensamento em formas e estruturas análogas a miríades de nuances imaginais. Observem, na linha bordada não há fluência de cor, nem mesmo de traço. E notem, também no suporte cerâmico não há rapidez. Claro, um círculo bordado, por exemplo, requer linha multitangente; qualquer cerâmica demanda tempo de cozimento; e recortes de papéis soltos e sobrepostos, como espécies de ampulhetas formais, dependem da manipulação de um sujeito etc.

Na ânsia de travar um acordo entre o devir e o perene, o artista recorre a uma estratégia de suspensão para lidar com camadas temporais. Assim, freando as mãos e impondo-lhes questionamentos, ruma ao infinitivo das coisas, dos acontecimentos, da criação, enfim.

À sua produção recente urge pausar, espaçar, pensar, pensar bem... E ter como ponto de partida o seguinte questionamento: “De que imagens consigo me lembrar?”

Em suas primeiras lembranças de menino, os pombos têm protagonismo, relata-nos ele. Seja como revoar, ante o aproximar de suas pernas a correr na praça; ou como se refugiar sob a janela fechada da sala esfumaçada pelo cigarro, aos sábados em família. Daquelas tardes, também as pedras coloridas guardadas na estante de vidro, qual “quebra-cabeça sem solução. Ou talvez com muitas” (...) são forte reminiscência. Mas não apenas.

 Também os sonhos... “Ah! Eram tantos”, diz ele, “que mal conseguia fechar as mãos.”  Se “tempo e espaço expandiam e retraíam alimentados por expectativas”, não à toa, segundo Mateu, o presente revela-se espécie de “nó no peito que mistura passado e futuro”.

Bem-vindo nó! Aqui, apresentado num conjunto expositivo capaz de dar sentido à espera coletiva (de todos nós) por um dia que não chega. Afinal, hipnotizados pela suspensão do tempo na quarentena imposta em razão de uma pandemia, quando esse (nosso) momento de isolamento passar, “de que imagens conseguiremos nos lembrar?”

Em nossa fantasia poética, a recorrência de determinados elementos nas imagens de Mateu Velasco assemelha-se a pista intencional ao entendimento das coisas no mundo. Não como simbólica de fatos, mas sobretudo, como motivo a reinvenções existenciais. Além dos já citados pombos, referimo-nos à cadeiras, objetos cotidianos, invariável anonimato “humano”. A cadeira, assim como diversos objetos de consumo, por exemplo, conota o desejo pelo ilusório do poder da posse. As plantas, quais relógios de sol, expressam o ciclo vital sob a forma do vazio de vaso. A pedra, símbolo extremo da passagem do tempo, é como referência angular da criação.

Contudo, independente de as coisas presentes nas imagens de Mateu dizerem respeito ou não  à situações experimentadas por ele, à liminaridade real/mental inerente à sua obra é um meio de travessia ao infinitivo. Travessia à qual, como sugere o poeta Pessoa: “se não ousarmos fazê-la, teremos ficado (...) à margem de nós mesmos”...

 

Sonia Salcedo del Castilllo

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exposição 24.08.2020 – 12.09.2020

curadoria Sonia Salcedo del Castillo

assistente de curadoria Rafael Peixoto

 

fotografia Felipe Diniz

assessoria de imprensa Monica Villela

filme Alessandra & Frederico

3D virtualScan

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