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PAULO VIEIRA

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PAPÉIS AVULSOS
Curadoria: Isabel Sanson Portella
setembro/2014

"Às vezes pelas tardes certo rosto

Contempla-nos do fundo de um espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela nosso próprio rosto."

Jorge Luís Borges, Arte Poética, em O Fazedor (1960)

 

Quem desenha conta histórias. Inventa, cria rostos, dialoga com a magia. Procura novas narrativas escapando do obvio em busca da novidade. 


Desenhar e prática constante para Paulo Vieira. Com grafite, lápis de cor, aquarela e papel vai contando histórias, modificando realidades a procura do que existe no fundo de cada imagem captada por seu olhar atento. São muitos e diários os desenhos criados. São todos papeis avulsos que vão se somando, revelando histórias. 


A exposição Papeis Avulsos apresenta obras de Paulo Vieira onde desenho e pintura aparecem numa mistura fascinante. Da prática diária surge a exposição. Do exercício da observação e da disciplina, o artista. Seus desenhos "falam" de pessoas que entram nas narrativas como personagens em histórias. Tem existência própria e seguem desgarrados, isolados. O homem de gravata, em “Autorretrato”, assim como o homem com a casa nas costas, em “O Inquilino”, estão sós, perdidos em seus pensamentos e ocupando o primeiro plano. Avulsos, interagem com seus medos, seus fantasmas, suas fantasias. Os tons de cinza, as tramas e padronagens ao fundo imprimem aos desenhos uma densidade surpreendente. Em outra obra, a foto de uma família e usada por Paulo Vieira para expressar duas visões diferentes sobre um mesmo tema. O artista cria, através da cor e do desenho, um personagem destacado do conjunto familiar antes uniforme. Com intervenções criativas, torna a narrativa menos linear, mais instigante, menos óbvia.


A Menina com fio de ouro surpreende pela beleza dos traços, pela segurança e nível de consciência do autor ao realizar essa obra. Quantas possibilidades se apresentam diante de uma imagem tão instigante. O rigor da forma e a precisão nos detalhes sobressaem após o encantamento inicial. Mas quem observa certamente se perdera pelos diversos caminhos que o desenho pode levar.
Na delicadeza do uso da cor e no cuidado com os desenhos, Paulo Vieira nos fala sutilmente de solidão, de vida interior, do reinventar. Para ele o equilíbrio esta muitas vezes no desequilíbrio, a intuição tem que ser submetida a experiencia e as imagens podem criar armadilhas. O desenho proporciona infinitas possibilidades. Permite que o olhar crítico se aproxime procurando sentidos cada vez mais profundos. Mas também nos mostra que a beleza reside absoluta no traço seguro, na cor adequada, na imagem captada pelo olhar experiente. Ao espectador fica a tarefa de contar outra história após o momento de fruição. Uma história que permanecera no seu interior, poderosa, pois e unicamente sua. Perturbadora como um conto de fadas.

Isabel Sanson Portella

Doutora em História e Crítica de arte      

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