paulo vieira

ponto cego

agosto/2018

No universo das redes sociais e dos telefones celulares, pensar em solidão parece algo impossível, diante de tantas possibilidades de se relacionar com pessoas conhecidas ou estranhas, remotas ou contíguas. Há quase uma exigência, uma pressão social para que tenhamos sempre de nos manifestar a respeito de tudo o que nos tange: o trabalho, os amigos, o prato de comida, o cão afetuoso, a chuva que cai impiedosamente do lado de fora da janela. Tudo é partilhado numa dissolução dos limites entre público e privado que ameaça os territórios mais íntimos de nossas memórias e sentimentos.

Paulo Vieira diz que não. E resiste ao fluxo incessante de informações e à ansiedade do eterno presente com uma pintura e um desenho soberbos e sem concessões. Contra o mundo conectado, consumível e contente, a única saída possível é aquilo que Garcia Márquez chamou de “um pacto honrado com a solidão”.

O artista e pensador sabe que todo o som e a fúria de imagens de nosso tempo significam nada e que as coisas mais importantes da vida continuam no limiar do silêncio e da incomunicabilidade que o pensador Havelock Ellis definiu como “um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. Isolamento e solidão são coisas diferentes e, a despeito de todas as dificuldades, a solidão não deve ser meramente entendida como patologia, mas uma busca de formas de comunicação mais profundas e verdadeiras, sem a mediação das máquinas e dos discursos vitoriosos que observam a ordem das coisas.

Na Renascença, chamavam a isso de sacra conversazione, uma percepção subjetiva que só pode ser entendida no plano simbólico, na escolha precisa das cores e seus significados, nos sinais existentes de uma vida que afirma sua irredutível independência, mesmo que apenas na realidade psíquica e nas dobras dos sonhos e dos pensamentos. Contra a banalização da vida, a arte onírica de Paulo Vieira nos obriga a confrontar o trágico, a obscuridade e o desconhecido, onde voragem e vertigem são apenas outros nomes do mesmo abismo que olha para você.

 

Mauro Trindade

curador

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