xico chaves

solotransição

setembro/2017

Solotransição, título dado por Xico Chaves à sua primeira exposição em galeria particular desde 1989, é esclarecedor já que aponta não somente para as transformações ocorridas em seu trabalho neste período, como  também para a consolidação do eixo poético que nucleia seu processo criativo.

 

O trabalho de Xico Chaves vem se desenvolvendo desde os primórdios dos anos 70 em torno de questões recorrentes como o interesse pela experimentação de linguagens e meios técnicos de natureza diversa. Mas ao lado dessa vertente experimental voltada para a reconstrução poética da vida contemporânea por meio de ações multimidiáticas, Xico vem produzido pinturas e objetos cujo silêncio difere da ruidosa fricção entre arte, palavra e mídias, técnicas tão característica de sua obra.

 

Tal polarização entre o silêncio de um ofício ancestral, como a pintura, e a articulação narrativa da crítica política e ideológica aos meandros obscuros do poder institucionalizado − por meio de interlocução alternativa com a cultura popular urbana brasileira − configura, esclarece e justifica a liberdade de Xico ao editar poesia e visualidade, tecnologia e artesanato, articulando-os em rede.

 

Há, portanto, uma contiguidade coerente entre o fazer manual da pintura e o apreço de Xico pela potência temático–semântica das novas tecnologias da imagem (da fotografia à computação). Característica que nos permite afirmar que o núcleo investigativo de qualquer obra de Chaves resulta do afloramento crítico do que os discursos sobre a arte e a sociedade costumam velar.

 

Toda a pintura do artista, desde as séries mais antigas – como as da Nova Matéria, da década de 80 − às mais recentes – como as da série The Big Bang, de 2017 – foi produzida com minerais, pigmentos naturais e resina acrílica com o intuito de tornar visíveis os materiais de que são feitas, de trazer à superfície da Terra, suas entranhas. Há aqui, sobretudo, a intenção de revelar essa potência invisível (posto que oculta) pelo simples ato de trazê-la à luz tornando-a aparente (e acessível ao olhar).

 

Tais pinturas e objetos, portanto, não buscam seu sentido nem na palavra, nem na imagem figurada, mas no teor semântico inerente aos materiais neles utilizados. Expostos numa ordenação compositiva mínima, estes materiais parecem evocar simbolicamente um âmbito fundamental e permanente (mas não ontológico) que precede, e sobreviverá por milênios ao contexto histórico em que vivemos e onde hoje Xico decisivamente atua.  Por estas razões, a despeito parecerem abstratos, esses trabalhos podem ser tomados, inversamente, como âncoras poéticas do processo criativo experimental de Xico Chaves.

 

Fernando Cocchiarale

curador

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