TOZ

um por todos, todos por um

dezembro/2014

"E chegará o momento de ver que somos todos um
E a vida flui dentro de você e sem você."

George Harrison, Within You Without You


Nos últimos anos, Graziela Pinto se dedicou à produção das pinturas, desenhos, obras tridimensionais e em vídeo que compõem a mostra bios: vida, na qual nos apresenta à sua geometria orgânica permeada pela natureza. Não como se geometria e natureza fossem distantes ou opostas – a natureza, tão cara à artista, emprega a geometria de maneira magistral. E, do macro ao micro, da abóbada celeste aos mínimos átomos, a natureza repete a mais estável e simétrica das formas: a esfera. Além dela, aparecem na obra de Graziela correntes e elos, entrelaçamentos e fractais, outros símbolos da infinidade compulsiva dos ciclos que configuram a própria vida, organizados em “biomas” ou grupos de vidas particulares concebidos pela artista para cada um dos trabalhos.

 

Nas obras reunidas em bios: vida, Graziela busca uma síntese formal de elementos recorrentes em sua poética. As aves, por vezes tão fielmente retratadas, são insinuadas por meticulosas penas pintadas sobre telas ou bolas de madeira, estas protegidas por estruturas emaranhadas em cobre oportunamente chamadas de “ninhos”. Esferas brancas simuladas na pintura ganham diferentes cargas simbólicas conforme o desejo da artista: parecem ora leves, frívolas e efêmeras como bolhas de sabão, ora densas e firmes como feitas de pedra ou madeira maciça. No meio termo dessas permanências, elas são a vida presente, sugerida como tatu ou como ovo que secreta nova existência. A arte é, muitas vezes, entendida como espelho que reflete o espírito do artista e seu estado de ânimo. Se é verdadeira, essa colocação esclarece a representação de abrigos como os ninhos, os ovos, a carapaça do tatu ou as cascas que protegem as sementes dos frutos no momento em que Graziela, grávida, aguarda a chegada de seu segundo !lho.

 

Uma tradição da natureza-morta, gênero referenciado nestas obras, advertia-nos sobre nossa condição humana. Entre as alegorias escolhidas para simbolizar a fugacidade da vida, figuravam iridescentes bolhas de sabão. É verdade, somos frágeis e breves. No entanto, brilhamos. Na obra de Graziela Pinto, a bolha remete ao momento vivere: em oposição ao lembrete da partida, sua natureza-viva é a celebração da passagem.

 

Bios: vida conta ainda com o vídeo "Duas bolas" (2014), no qual uma esfera branca é lançada ao mar em dois momentos – pela manhã e à noite. A bola flutua e se agita ao sabor das ondas. Formalmente, torna-se pintura em movimento, uma experiência sobre a massa e a solidez deste objeto, sobre iluminação, profundidade e ponto de fuga.  Por outro lado, pode ser interpretado como a observação de seu vestígio material sobre a natureza, o inegável registro de sua presença – embora pequena, sua ação atesta ao mundo “eu também estive aqui”.


Deborah Moreira

Pesquisadora, redatora e crítica.

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