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"A nossa memória é construída. O nosso cérebro projeta o futuro e o passado, e completa cada espaço vazio com as nossas narrativas. A minha forma de contar histórias é através do desenho. Eu coleciono imagens das coisas que vejo e do que carrego na minha memória." 

"Our memory is a construction. Our brain projects the future and the past completing every empty space with our narratives. My way of telling stories is through drawing. I collect images of the things I see and of what I carry in my memory."

 

MATEU VELASCO

Como se quisesse abraçar o tempo...

 

Na produção recente de Mateu Velasco, há uma vontade poética tão intensa, que parece almejar o infinitivo. À maneira de quem reflete sobre questões filosóficas fundamentais, como a de ser e de estar no mundo, seus trabalhos sugerem driblar a duração sequencial peculiar a Chronos, em favor da indeterminação temporal de Kairós. Em lugar da finitude do tempo entrópico e linear, Velasco indica desejar, portanto, a infinita experiência do momento oportuno. Seu alvo é, pois, a qualidade em detrimento da quantidade. Sob tática lúdica, suas obras fluem através de um vocabulário onírico, mnemônico e ficcional. E para realizá-las, não por acaso se utiliza de diferentes meios e suportes, como pinturas, desenhos, bordados sobre madeira, tecido ou cerâmica, além de recortes manipuláveis.

Mateu possui um virtuosismo no desenho inconteste. A fugacidade de seu traço parece externar a agilidade de seu pensamento em formas e estruturas análogas a miríades de nuances imaginais. Observem, na linha bordada não há fluência de cor, nem mesmo de traço. E notem, também no suporte cerâmico não há rapidez. Claro, um círculo bordado, por exemplo, requer linha multitangente; qualquer cerâmica demanda tempo de cozimento; e recortes de papéis soltos e sobrepostos, como espécies de ampulhetas formais, dependem da manipulação de um sujeito, etc.

Na ânsia de travar um acordo entre o devir e o perene, o artista recorre a uma estratégia de suspensão para lidar com camadas temporais. Assim, freando as mãos e impondo-lhes questionamentos, ruma ao infinitivo das coisas, dos acontecimentos, da criação, enfim.

A sua produção recente urge pausar, espaçar, pensar, pensar bem... E ter como ponto de partida o seguinte questionamento: “De que imagens consigo me lembrar?”

Em suas primeiras lembranças de menino, os pombos têm protagonismo, relata-nos ele. Seja como revoar, ante o aproximar de suas pernas a correr na praça; ou como se refugiar sob a janela fechada da sala esfumaçada pelo cigarro, aos sábados em família. Daquelas tardes, também as pedras coloridas guardadas na estante de vidro, qual “quebra-cabeça sem solução. Ou talvez com muitas” (...) são forte reminiscência. Mas não apenas.

 Também os sonhos... “Ah! Eram tantos”, diz ele, “que mal conseguia fechar as mãos.”  Se “tempo e espaço expandiam e retraíam alimentados por expectativas”, não à toa, segundo Mateu, o presente revela-se espécie de “nó no peito que mistura passado e futuro”.

Bem-vindo nó! Aqui, apresentado num conjunto expositivo capaz de dar sentido à espera coletiva (de todos nós) por um dia que não chega. Afinal, hipnotizados pela suspensão do tempo na quarentena imposta em razão de uma pandemia, quando esse (nosso) momento de isolamento passar, “de que imagens conseguiremos nos lembrar?”

Em nossa fantasia poética, a recorrência de determinados elementos nas imagens de Mateu Velasco assemelha-se a pista intencional ao entendimento das coisas no mundo. Não como simbólica de fatos, mas sobretudo, como motivo a reinvenções existenciais. Além dos já citados pombos, referimo-nos a cadeiras, objetos cotidianos, invariável anonimato “humano”. A cadeira, assim como diversos objetos de consumo, por exemplo, conota o desejo pelo ilusório do poder da posse. As plantas, quais relógios de sol, expressam o ciclo vital sob a forma do vazio de vaso. A pedra, símbolo extremo da passagem do tempo, é como referência angular da criação.

Contudo, independente de as coisas presentes nas imagens de Mateu dizerem respeito ou não a situações experimentadas por ele, a liminaridade real/mental inerente à sua obra é um meio de travessia ao infinitivo. Travessia à qual, como sugere o poeta Pessoa: “se não ousarmos fazê-la, teremos ficado (...) à margem de nós mesmos”... 

Sonia Salcedo del Castillo

"Esse período de isolamento aprofundou o meu olhar sobre o tempo. Testei formas de frear a explosão do desenho e dilatar o momento do fazer.

Porque o tempo é como a memória, ele existe de alguma forma, mas não da forma que se apresenta ali."

"This isolation period has deepened my regard of time. I’ve tested ways of slowing down the burst of a drawing and extend the moment  of making.

Because time is like memory. It exists somehow, but not in the way it presentes itself."

 

MATEU VELASCO

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Mateu Velasco nasceu em Nova York, em 1980, e mudou-se para o Rio com apenas um ano de idade. Formou-se em Desenho Industrial pela PUC-Rio em 2003 e é mestre em Design Gráfico pela mesma universidade. Começou a trabalhar profissionalmente como ilustrador em 1999. Expandiu sua atuação pintando murais públicos no início dos anos 2000, desenvolvendo uma linguagem própria como artista visual, que pode ser encontrada em muros e galerias de São Paulo, Rio, Los Angeles, Nova York, Paris e Milão. É professor no departamento de Artes e Design da PUC-Rio e representado pela Galeria Movimento Arte Contemporânea desde 2008.

Os murais pintados pelo artista tiveram importância fundamental para evolução da arte urbana carioca, pois traziam um estilo próprio de ilustração que incluía uma boa dose de design gráfico, - em cores, estilo e acabamento - evidenciando seu trabalho como um diálogo aberto entre rua e academia.

Artista em deslocamento, Mateu passou nos últimos anos por diferentes cidades e países, incorporando a cada viagem novos elementos ao seu universo imagético. Ao longo dessa jornada vem colecionando imagens do seu cotidiano, transformando-as em desenhos, rabiscos, esboços e grafismos diversos. A junção de cada fragmento constitui o fio condutor do seu processo criativo, convidando o espectador para novas possibilidades de narrativas visuais e poéticas.

Na série “Pequenos Achados”, ao adotar a cerâmica como suporte, Mateu revela os diferentes estratos do tempo que compõem a matéria.

When adopting ceramics as a support in the series “Pequenos Achados”, Mateu reveals the different time layers that make up the material.

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Na série “Gavetas”, que articula recortes de papel, fotografias, fios de algodão e gelatina, Mateu mistura e reaproveita objetos acumulados pelo exercício coletor que é base de sua poética, para criar uma obra autoral. As “gavetas” manipuláveis lidam com o imprevisível e, a qualquer movimento do espectador, revelam composições infinitas e imprecisas. Assim como as memórias. São as múltiplas camadas e permanências de passados que conferem espessura ao presente do artista.

In the series "Gavetas”, that articulates paper trimmings, photographs, cotton shreds and gelatine, Mateu mixes and repurposes objects accumulated by the collecting exercise that is the basis of his poetics, to create an authorial work. The malleable “drawers” deal with the unpredictable and, at any time the spectator moves, reveals infinite and imprecise compositions. As do memories. It is the multiple layers and permanence’s of the past that give thickness to the artist’s present.

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FICHA TÉCNICA

curadoria Sonia Salcedo del Castillo

assistente de curadoria Rafael Peixoto

fotografia Felipe Diniz

assessoria de imprensa Monica Villela

filme infinitivo Alessandra & Frederico

filme gavetas Gabriel Duran

3D virtualScan

Galeria Movimento Arte Contemporânea

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Copacabana | 22070-002 | Rio de Janeiro, RJ

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