EDU MONTEIRO

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Rio de Janeiro, RJ - 1972

Vive e trabalha no Rio de Janeiro

Seu trabalho transita pela fotografia, performance, escultura e videoinstalação. Atravessamentos perceptíveis em suas obras mais recentes, nas quais, Edu apresenta o universo mágico das danças de combate africanas e da diáspora. Interesse despertado pela prática da capoeira e solidificado em suas viagens de pesquisa para a África e o Caribe durante seu doutorado em artes pela Uerj.

 

É da memória ancorada no corpo, do sobrevoo simbólico de suas buscas, da alteridade, da resistência, das vibrações emanadas no corpo, no verbo, no ritmo, na imagem e na matéria que nascem suas proposições artísticas.

 

obras

SÉRIE: LADJA

A partir do aprendizado de oito meses da ladja – uma dança de combate embalada pelo canto e o toque do tambor, ato de afirmação cultural nascido nas encruzilhadas da diáspora africana na Martinica – este trabalho mergulha no universo do colonialismo.

Uma travessia que parte de suas rotas mais perversas, para navegar nos gestos de resistência corporais, artísticos e literários, até emergir nos atravessamentos das fronteiras físicas e culturais de suas expressões na contemporaneidade. Esta pesquisa ancora-se na busca pelo principal fundamento desta luta,ou wè`y ou pa wè`y, expressão em crioulo que significa "vê mas não vê" e se refere à capacidade ilusionista dos golpes deste combate, que impossibilita a percepção visual do oponente diante do ataque, transformando o visível em invisível através do corpo.

Um dos caminhos para se chegar a este fundamento é o ékilib/dézékilib, equilíbrio/desequilíbrio em crioulo, trata-se de uma estratégia utilizada pelos lutadores para enganar o adversário através da simulação de desequilíbrio. Fundamento e caminho que também se apresentam como metáforas do que deve ser mostrado ou ocultado para se manter o prumo da existência em sociedades desequilibradas pela escravidão.

É da memória ancorada no corpo, do sobrevoo simbólico desta busca e das vibrações emanadas no corpo, no verbo, no ritmo, na imagem e na matéria que nascem as proposições artísticas deste trabalho. 

SÉRIE: CAIXAS DE MEMÓRIAS ANCORADAS NA PELE

Com a instalação “Caixas de memórias ancoradas na pele” Edu Monteiro foi finalista do prêmio Pierre Verger 2019. São fotos de Laamb, também conhecida como luta senegalesa, impressas em pele de carneiro. Este trabalho possui um aspecto escultural que remete à tridimensionalidade da arte africana. A retro iluminação confere textura ao couro: cada pele tem uma história, uma vida, o que torna cada impressão única.

SÉRIE: SATURNO

O mundo tornado imagem é de imediato perdido. Por isso a fotografia carrega certa melancolia: a imagem é sempre passado. A conquista imaginária do planeta Terra a que os primeiros fotógrafos-viajantes se lançaram, gloriosos, permitia a ilusão de um ganho (de mundo). Hoje, a viagem da fotografia talvez tenha se tornado um tocante e repetido inventário do que nos resta. Nela seríamos guiados pelo planeta Saturno, que segundo os antigos estaria associado à produção da bile negra que domina o temperamento melancólico.

Saturno é uma dessas viagens do retorno, da perda, mas é também um itinerário de transformação do mundo. Edu Monteiro nela retoma lugares assumidamente íntimos, em uma espécie de busca de si mesmo. De volta ao Sul do país, onde nasceu e passou sua infância, ele percorreu a serra gaúcha e o longo litoral do estado. Às imagens obtidas nesses itinerários acrescentaram-se fragmentos obtidos em outras paragens: Paris, Buenos Aires, Ilha Grande, Porto Alegre, Barbados.

Nessa múltipla viagem o fotógrafo não confirma seu lugar no mundo, mas afirma-se fora de si: em determinados recortes do mundo. Em algumas fotografias Edu utiliza um complexo dispositivo concebido por ele mesmo e composto de um espelho circular que lhe cobre o rosto e ao qual se acoplam, em sua face interna, o visor e o disparador remotos de sua câmera fotográfica. Graças a esse aparato, o artista se duplica e divide entre aquele que vê e aquele que é olhado pela câmera. Em parte mimetizado ao ambiente, ele pode então, alternadamente, se confundir com o contexto à sua volta ou dele se destacar, brincando com a distinção entre paisagem e retrato, objeto e sujeito, de modo a afirmar na paisagem e no objeto uma estranha força de autorrepresentação.

Diferente de sua própria imagem, o sujeito surge com força, assim, mesmo nas imagens em que não há espelho nem autorretrato: ele está disseminado em objetos e cenas. A fotografia retoma então toda sua potência alegórica, todo o estranho poder que talvez lhe atribuíssem em seus primeiros tempos: aquele de animar restos e fragmentos variados de mundo. 

Tania Rivera

SÉRIE: AUTORRETRATO SENSORIAL

Mitologias Contemporâneas

Tal qual o homem-bomba, que abre mão da sua identidade em nome de uma ideologia, Edu Monteiro esconde o rosto sob máscaras, obscurecendo sua condição humana à medida em que transforma-se em um ser híbrido. A diferença, entretanto, reside na poética que o artista alcança, brutal por um lado, repleta de humor por outro. As texturas que o fotógrafo busca em elementos orgânicos-plantas, pimentões e carvões aproximam sua pesquisa daquilo que Archimboldo fazia na pintura: retratos que confundem os sentidos ao deturpar a própria natureza. Já as imagens que ele obtém através da fusão do corpo humano com o corpo artificial - cigarros e bichinhos de pelúcia - remetem a um futuro sombrio ou decadente, habitado por criaturas mutantes.

De uma forma ou de outra, a carga política é intrínseca ao trabalho de Monteiro, quer seja nas mutações orgânicas que suscitam discussões ecológicas, quer naquelas em que o consumo se sobrepõe ao indivíduo, modificando suas feições, como que se houvesse adulterado sua carga genética. Por outro lado, o preciosismo com que as produções são iluminadas só faz reforçar o discurso estético do artista, pois que a publicidade confunde-se com a arte dando verdadeiro nó na imagem fotográfica.

Os híbridos construídos nesta série de autorretratos são tão plurais quanto excludentes, evidenciando e ocultando as complexas facetas que forjam e tão bem caracterizam a espécie humana. Esculturas vivas, os bustos fotografados conversam com o espectador sedimentando sua personalidade. Como Medusa ao olhar-se no espelho, somos petrificados quando nos reconhecemos nas imagens do fotógrafo.

Bernardo José de Souza

Autorretrato sensorial é uma ficção pessoal. O impulso surgiu ao ver uma máscara sensorial da artista plástica brasileira Lygia Clark. Com ela, veio a vontade de experimentar, manusear, vestir aquele objeto de sensações e autoanálise, proposto pela artista.Comecei então a criar minhas próprias máscaras, não só inspiradas em poéticas utilizadas por Lygia, mas também em diferentes artistas ao longo da história da arte, que de alguma forma marcam minha memória. Inspirado nessa proposta, produzo autotransformações em vez de usar os corpos dos outros, como faziam Clark e Oiticica. Ofereço meu próprio corpo e mente a experiências semelhantes com as que Lygia trabalhava no “arquivo de memórias” dos seus pacientes: os seus medos e fragilidades, através do sensorial.

 

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